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Corpos estranhos no esôfago e estômago |
Dr. Stéfano Gonçalves Jorge
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Corpos estranhos no trato gastrointestinal são comuns. Grupos de
risco incluem as crianças (cerca de 80%), os portadores de deficiência
mental e doença psiquiátrica e aqueles que se beneficiam do incidente
(geralmente prisioneiros). A maior parte dos corpos estranhos (80 a
90 %) passa pelo trato gastrointestinal sem dificuldades, mas uma
pequena porcentagem (10 a 20%) pode obstruir a luz e perfurar a
parede, necessitando de remoção por via endoscópica – cerca de 1%
exige cirurgia. Como o esôfago é a porção mais estreita do trato
gastrointestinal (com a exceção do apêndice), de 28 a 68% dos
corpos estranhos são encontrados nele.
O esôfago é uma estrutura tubular de 25
cm com quatro secções de estreitamento. A primeira corresponde ao músculo
cricofaríngeo, separando o esôfago da hipofaringe, a 15 cm dos dentes
incisivos nos adultos. As demais correspondem ao arco aórtico (23 cm), ao brônquio fonte esquerdo (27 cm) e ao hiato diafragmático (40
cm).
SINAIS E SINTOMAS
Adultos podem geralmente referir que ingeriram um objeto, descrevê-lo
e dizer o horário em que isso ocorreu. Em crianças, o acidente é
observado em cerca de 75% dos casos. Disfagia, odinofagia e hipersalivação
sugerem corpo estranho esofágico. Também pode se apresentar com dor
torácica, tosse, dispnéia, chiado ou estridor. Em casos mais severos,
particularmente nos corpos estranhos grandes ou pontiagudos, pode haver
dor intensa, vômitos, recusa à alimentação, saliva tinta com sangue
ou choque. O exame físico pode sugerir perfuração, através de edema,
eritema, dor ou crepitação cervical.
DIAGNÓSTICO
A radiografia simples é indicada quando houver suspeita de corpo
estranho esofágico, devendo ser realizada nas projeções
posteroanterior e lateral, da região cervical e torácica. Objetos metálicos
planos, como moedas, costumam se apresentar no plano sagital se estão
na traquéia e no frontal se no esôfago. A avaliação radiológica
deve ser realizada mesmo nos casos de carne impactada, para identificar
fragmentos de osso em seu interior. Deve-se ter sempre em mente, mesmo
após descoberto o corpo estranho no estudo radiológico, que pode haver
mais de um objeto, sendo que o segundo pode não ser visível ao exame.
Em todo exame radiológico deve-se procurar sinais de enfisema subcutâneo
que sugiram perfuração.


Moedas no esôfago
Fonte: Fincher,
RK e Osgard, EM
TIPOS DE CORPOS ESTRANHOS
Crianças costumam ingerir objetos enquanto brincam. Dentre
esses, o mais comum é a moeda. Outros comumente observados são comida,
agulhas, pregos, brinquedos, parafusos, pilhas, clipes de papel,
brincos, tampas de caneta e de garrafa e pedaços de vidro, entre
outros. Em adultos, o uso de dentaduras é muito associado à ingestão
de corpos estranhos, pois elimina a sensibilidade tátil do palato mole,
necessária para identificar objetos no alimento que possam agir como
corpos estranhos (ossos, espinhas de peixe, etc.).
Moedas e objetos rombos
Moedas são os corpos estranhos mais comuns em crianças. Pelas
suas bordas rombas, moedas no esôfago costumam apresentar complicações
apenas quando permanecem impactadas por mais que 24 horas. Por ser
radiopaco, os pacientes se beneficiam de radiografias, que definem a sua
localização e ajudam a determinar a conduta. Em geral, moedas pequenas
passam espontaneamente por todo o trato digestório. Moedas maiores (23
mm) tendem a se impactar no esôfago. Estudos mostram que moedas no esôfago
proximal tendem a permanecer no mesmo local, necessitando de intervenção,
enquanto que as distais costumam seguir adiante. Aconselha-se que moedas
em esôfago distal devem ser seguidas radiologicamente até 24 horas. Se
passar para o estômago, radiografias semanais por 3 a 4 semanas são
suficientes para acompanhar a progressão do corpo estranho.

Moedas no esôfago
Fonte: Fincher,
RK e Osgard, EM
Em casos selecionados – crianças sem sintomas respiratórios,
que possam ser restritas sem sedativos, sem diagnóstico de malformações
ou cirurgias esofágicas anteriores, com corpo estranho há menos que 24
horas – são candidatas à técnica de retirada com sonda tipo Foley.
Nos demais, essa técnica não é aconselhada e sugerimos a realização
de esofagoscopia rígida ou flexível, com alça de polipectomia ou pinça
de corpo estranho (sendo a tipo alligator a mais recomendada).
A técnica com sonda Foley é comprovadamente de menor custo,
altamente efetiva (sucesso em 95-98% dos pacientes), não exige
internação e é segura (complicações raras) nas situações
descritas. Mesmo assim, sofre críticas pelo risco de aspiração do
objeto, por não ser possível em todos os casos e por não permitir a
investigação de patologias subjacentes.
Técnica de extração com sonda tipo Foley: O paciente é restrito em decúbito lateral na mesa de
fluoroscopia. Equipamento para manuseamento de vias aéreas deve estar
de fácil acesso, com médico habilitado na sala. Uma sonda tipo Foley (12F a 14F) é passado e guiado distal ao objeto sob fluoroscopia. O balão
é então insuflado com contraste radiológico e retirado lentamente. Se
o corpo estranho resistir, o procedimento é interrompido. Logo antes de
chegar à orofaringe, a criança é rodada à posição prona para
eliminar o objeto.
Carne
Carne impactada no esôfago proximal ou distal é o corpo estanho
mais comum em adultos. Crianças raramente têm esse problema a não ser
que apresentem malformações congênitas do esôfago. Radiografias são
indicadas para avaliar a presença de fragmentos ósseos na carne, que
possam justificar a impactação ou exigir cuidados na retirada para
evitar lesões esofágicas. Em todos os casos, deve ser realizada
endoscopia, mesmo se a carne passar espontaneamente, pela alta incidência
de patologias esofágicas predisponentes, como estenoses ou hérnias (até 97% dos casos).
Se a endoscopia for realizada logo em
seguida à ingestão, a carne pode ser retirada em um único pedaço
através da alça de polipectomia. Observou-se que após 6 horas da
ingestão, a carne torna-se mole, prejudicando a retirada por se desfaz
com facilidade. Nessa situação, há três alternativas:
1. Passar o endoscópio ao
lado do bolo de carne para avaliar a presença e o tipo de patologia
esofágica subjacente e, se não houver estenose significativa, puxar o
aparelho proximalmente ao corpo estranho e empurrá-lo delicadamente até
o estômago;
2. Utilizar um overtube para
facilitar múltiplas retiradas. Mesmo assim, o bolo de carne pode estar
tão amolecido, exigindo um número tão grande de retiradas, que o
exame pode tornar-se prolongado demais, sendo incômodo ao paciente e ao
endoscopista;
3. A utilização de um
overtube e da ponteira de ligadura elástica de varizes. Com a ponteira,
o endoscópio pode ser utilizado para aspirar o bolo de carne e, com
aspiração contínua, o aparelho é retirado com o fragmento. Em média,
são necessárias apenas duas ou três passagens para retirar todo o
corpo estranho.
Objetos cortantes e
pontiagudos
Apesar de incomuns, esses corpos estranhos estão associados a um
risco maior de morbidade e mortalidade. Portanto, o bom senso deve ser
levado em consideração em todos os casos, para evitar o risco de
complicações iatrogênicas, como perfuração esofágica. Os objetos
mais comuns são palitos de dente, unhas, agulhas, ossos, lâminas,
alfinetes de segurança e próteses dentárias. O princípio básico no
manuseio deste tipo de corpo estranho é o de não puxar uma ponta ou
lâmina contra a parede. Objetos com mais de 5 cm de comprimento e 2
cm de diâmetro raramente passarão do estômago, apresentando risco de
perfuração do bulbo duodenal.
Alfinetes de segurança abertos no esôfago com a ponta virada
para cima devem ser empurrados até o estômago, virados e, só então,
puxados de volta. O uso de overtube é recomendado. Lâminas, em crianças
e adultos, podem ser retirados através de esofagoscopia rígida,
puxando a lâmina para o interior do endoscópio com um fórceps e
retirando todos ao mesmo tempo. Em adultos, o endoscópio flexível pode
ser utilizado com o overtube, com o mesmo pricípio. Um modo útil de
diminuir o risco de complicações usando o endoscópio flexível é
atando um pedaço de luva de borracha na ponta, para impedir o contato
da ponta do corpo estranho com a parede esofágica. Deve ser lembrado
que lâminas sofrem rapidamente ação corrosiva do suco gástrico. Em
poucas horas, as lâminas podem ser quebradas por pinças comuns,
podendo ser divididas em pedaços se isso facilitar a retirada.
Apesar de menos de 1% dos corpos estranhos desse tipo perfurarem
o estômago, devem ser retirados mesmo que já tenham passado o esôfago
pois 15 a 35% desses pode perfurar o intestino, geralmente na válvula
ileocecal. Se o objeto já passou pelo estômago, recomenda-se o exame
radiológico diário e, se permanecer no mesmo local por três dias
consecutivos, que seja retirado cirurgicamente.
Pilhas e baterias
Com o aparecimento dos aparelhos eletrônicos miniaturizados e a
sua ampla disponibilidade, surgiram as baterias como corpos estranhos,
principalmente em crianças e, nessas, os aparelhos auditivos são a
fonte mais comum. As baterias mais comuns são de dióxido de manganês,
óxido de prata e óxido de mercúrio. Causam lesão na parede do trato
gastrointestinal através de corrente elétrica ou através do vazamento
de seu conteúdo alcalino, capaz de provocar necrose dos tecidos.
Raramente, baterias de óxido de mercúrio podem levar a intoxicação
pelo mercúrio, podendo ser necessária quelação. Portanto, baterias
esofágicas devem ser tratadas como emergências. Na radiografia
simples, as pilhas podem ser diferenciadas das baterias, na imagem póstero-anterior,
pela presença de uma sombra de dupla densidade (halo) devido à sua
estrutura bilaminar. No perfil, pode-se observar o espaço entre as duas
lâminas.
Alem do risco de necrose e perfuração, as baterias são difíceis
de serem retiradas. Como causam reação entre as bordas e a parede,
geralmente se apresentam aderidas. Pelas suas bordas rombas, não são
adequadamente seguras pelos fórceps comuns. Por esses motivos,
descreve-se até 62,5% de insucesso na retirada endoscópica.
Os métodos mais indicados para a retirada de baterias no esôfago
são:
1.
Passagem de um balão de
dilatação através do endoscópio até distal à bateria, insuflar o
balão e puxar todo o conjunto;
2.
Empurrar a bateria para o
estômago e retirá-lo com uma alça de polipectomia, basket ou rede.
Sugere-se a aplicação de glucagon para reduzir a motilidade gástrica
e o risco da bateria passar para o duodeno;
3.
O uso de sonda tipo Foley
não está indicado pois não pode avaliar lesões esofágicas.
Uma vez no estômago, a maior
parte das baterias maiores que 23 mm irão passar pelo trato
gastrointestinal sem problemas. As maiores tendem a permanecer no
estômago, devendo ser retiradas. Pilhas tipo AA e AAA geralmente não
apresentam complicações uma vez que passam o esôfago.
Após a retirada, um estudo contrastado
deve ser realizado entre 24 e 36 horas para descartar a presença de fístula.
Após 10-14 dias, repete-se o exame para descartar fístula de
aparecimento tardio ou uma estenose.
Cocaína
Com o narcotráfico, é cada vez mais descrita a presença de
“pacotes” de cocaína como corpos estranhos. O pacote preferido é o
preservativo, que costuma conter de 3 a 5 gramas. A ingestão de 1 a 3
gramas pode ser fatal. Todos os pacientes devem ser submetidos a
radiografias simples (sensibilidade de 70-90%) e testes toxicológicos.
O toque retal deve ser realizado com cuidado, Pelo risco de romper um
pacote. Não deve ser tentado nenhum procedimento endoscópico. O
procedimento de escolha é cirúrgico.
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Artigo criado em: 31/03/05
Última revisão: 31/03/05
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